Esse trechinho da música Divina Queda da querida Cida Alves, diz muito dos meus últimos anos, meses, dias. Acho, na verdade, que diz muito da vida de brasileiros e brasileiras de qualquer idade nesse período que atravessamos, nesse mergulho na vida profunda que tivemos que dar desde o golpe que tirou a presidenta Dilma do poder. Uma trama política que vinha sendo forjada desde o falso Mensalão, que levou para a cadeia e destruiu a reputação de lideranças chaves na construção coletiva de um sonho que se sonhou junto,
que foi germinado e cultivado por muitas mãos e vários anos de trabalho, compromisso e verdade. Não tivemos olhos para ver a tempestade que vinha se formando e como birutas nos deixamos levar pelos maus ventos que sopravam. A partir dessas ações. se instalou o Lawfare, uma guerra silenciosa e potente que mudou o curso do Brasil e das nossas vidas. Passamos a encarar a aberração, a distorção do próprio Estado que se apresentou, nessa ocasião, como um agente violador de direitos. Como se não bastasse a tentativa de levar o país para o abismo, a queda foi agravada por pancadas
que deixaram marcas profundas em nossa democracia: Mensalão, impeachment de Dilma, prisão de Lula… essas experiências exitosas que adotaram o abuso de poder como desculpa para o combate a corrupção, serviram de estímulos para que fossem reproduzidas para além do Planalto Central e seus personagens poderosos, a exemplo da Operação Calvário na Paraíba e também em outros espaços espalhados no território nacional. Fazendo da vida de muitos um verdadeiro calvário, como o vivido por Cristo, só que modernizado, tendo a mídia hegemônica como parceira fundamental essa desconstrução e desqualificação, a destruição de reputações como forma de tortura. O certo virou errado, o bem virou o mal e a vida virou a morte de ideias, projetos, ações, políticas que colocavam o Brasil em posição de destaque no mundo e as lideranças viraram bandidas, pessoas dignas de ódio e desprezo. Nos conectamos com os escombros, com algo antes invisível aos nossos olhos comuns, algo vindo das profundezas do avesso humano. Fizemos esse mergulho no ódio, na maldade, no preconceito e vimos muitas pessoas que amávamos se distanciarem à medida que iam retirando a máscara de uma imagem que nos aproximava, nos identificava. Deixamos de ser grupos, famílias, comunidades, passamos a ser estranhos e muitos se
tornaram gado – povo marcado, povo feliz… desacreditando da educação, da ciência e acreditando nas armas, nas mentiras como se fossem religião, tudo em nome de um Messias qualquer. Rapidamente fomos muito fundo nesse lugar do des-humano, atraídos pela força da ignorância política e cidadã como um imã colocado no fundo do abismo que abriga tudo que é contrário aos
valores que há muito lutamos para conquistar. O que aqueles que nos empurraram não imaginavam, não contavam, era que muitos de nós, sabiam
voar! Isso! Muitos, ao serem empurrados para o abismo descobriram que tinham asas nas escápulas e voaram. Olha que lindo! Esse não é um voo como o que vemos ao contemplarmos os pássaros que facilmente associamos à
liberdade. Não. É um voo ferido, sofrido, é um voo de resistência. E por isso, lindo também. Lindo, porque nos inspira, nos mostra que somos mais do que conhecíamos sobre nós mesmos. Todos temos asas nas escápulas e podemos voar! É isso que estamos fazendo agora: aprendendo a voar.
Precisamos, como as gaivotas, assumirmos a forma de um boomerang, a forma aerodinâmica que nos levará de volta à planície que nos pertence e a qual pertencemos, de maneira mais rápida e segura. Nossa natureza não é a de voar, é de pisar no chão, erguer a espinha e caminhar aprumando o foco.
Mas, com certeza esse é o momento de usarmos nossas armas secretas! É isso que precisamos fazer: seguir. Mas é bom ver que o voo, a perspicácia de muitos de nós nos salvou do fundo do abismo e nos estimulou à luta. Muitos caíram de cara no chão, acreditando em falsos profetas, falsos heróis justiceiros. Muitos perderam a vida na queda e outros tiraram suas próprias vidas por não suportarem a cara feia da injustiça, da perversidade a qual fomos submetidos. Aquelas, que de pronto, abriram suas asas estimularam e estão estimulando o caminho de volta, mas o retorno para casa comum não se dará se não soubermos aproveitar o vento, se não tivermos consciência que a forma de garantir o bom voo é voarmos juntos, criarmos o vácuo que nos levará para cima, de volta ao começo. Não estamos em um momento perfeito. A volta à superfície exige sacrifícios, liderança, entrega e confiança. Nossas gaivotas-líderes não podem fazer um voo pleno, precisam que a gente assuma nossa posição para tornar o voo possível e eficaz. É isso que podemos fazer, pois aqueles que nos empurraram estão à espreita, postando em um voo desordenado, apostando que vamos nos desentender e bagunçar a ordem necessária. Isso seria uma nova queda, um novo abismo e as experiências servem para nos ensinar. Aprendemos? Esperamos que sim e que sigamos aprendendo, fazendo uma leitura mais consciente da vida, do mundo, das pessoas e das gaivotas. Quem nos empurrou para o abismo, não imaginava que podíamos voar e podemos! Podemos!

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