
Nelson Rosas Ribeiro
Embora as manobras para derrubar o governo continuem, os dados divulgados pelo Banco Central (BC), sobre a economia, jogaram água na fervura. O BC publicou os números para o IBC-Br, índice calculado por ele e que é considerado uma prévia do Produto Interno Bruto (PIB). O PIB representa a suma de tudo o que produzido no país, na indústria, agricultura e serviços. O “mercado” estimava que seria um crescimento de 0,26%, mas, desgraça… o crescimento foi de 0,60%, em janeiro. Esta é a terceira alta consecutiva, o que mostra uma tendência para a recuperação da economia,embora moderada. Para o ano, a estimativa do BC é de um crescimento de 3,35%.As aves agourentas continuam de cabeça baixa.
Mas a economia não é a principal desilusão. Na semana, o levantamento do sigilo dos depoimentos de algumas pessoas envolvidas nos processos que investigam a tentativa de golpe teve um terrível impacto. Destacamos dois depoimentos dados na polícia federal,que revelaram que Bolsonaro dirigiu pessoalmente as reuniões de preparação do golpe, solicitando a adesão dos comandantes militares. O general comandante do exército Marco António Freire Gomes declarou sua discordância e chegou mesmo a ameaçar prender o presidente, se ele tentasse. O tenente brigadeiro Carlos de Almeida Baptista Junior, comandante da aeronáutica, foi igualmente contra. Ambos confirmaram que a minuta do golpe, apreendida pela polícia, com o tenente coronel Mauro Cid, lhes foi apresentada pessoalmente pelo então presidente. Apenas o comandante da marinha, o almirante de esquadra Almir Garnier Santos, concordou em apoiar a ação. A máscara caiu. Com estes depoimentos a canalha bolsomínia está com o rabo entre as pernas e, em desespero, alguns discursos histéricos têm sido proferidos na câmara e no senado. O ex-ministro chefe da casa civil do governo Bolsonaro, Ciro Nogueira, atacou os comandantes tentando desmoralizar seus depoimentos o que lhe valeu uma merecida resposta do brigadeiro Batista Junior.
Ainda na área militar encheu os noticiários a divulgação de uma gravação, supostamente feita com o tenente coronel Mauro Cid, com denúncias de coação durante os depoimentos e ataques à polícia federal e ao ministro Alexandre de Morais, o que resultou na nova prisão do Mauro Cid. Ouvido por um delegado, Mauro Cid apressou-se a desmentir tudo o que foi divulgado, negando qualquer coação. Permanece o novo mistério sobre os motivos da gravação e os seus autores. A intenção, porém, está clara: estão querendo desacreditar as declarações do tenente coronel pensando em anular as provas contra os que ele denunciou.Esquecem que a delação não é a prova de nada. A delação indica apenas o caminho para conseguir as provas. Uma vez feita, mesmo anulada, as provas, se existirem, continuarão válidas. Que se cuidem.
O que há de positivo é que, desta vez, os militares estão agindo com mais inteligência. Há uma canalha civil, de paletó e gravata, modelo Ciro Nogueira, apoiada por empresários, que forma o grupo deautores das conspirações e utilizam os militares como executores. Foi assim em 1964 e os trouxas caíram como patinhos. Quando ocorre a “volta do cipó de aroeira” vai acertar no lombo dos militares, pois serviram de carrascos e assassinos e executaram o trabalho sujo. Por trás disto está a formação anticomunista primária e o reacionarismo conservador e retrógrado que está enraizado nas escolas preparatórias de oficiais. De qualquer modo estamos diante de um grande avanço: os militares não aderiram ao golpe. Uma vez calados os fuzis, a luta se transfere para o campo da política e dos embates ideológicos, que caracterizam o nosso tempo, e para osquais não temos fórmulas prontas. Eis o desafio. Agora, o capitãozeco, que até expulso do exército foi, está no mato sem cachorro e, sem apoio militar, acovardado, até começou a negociar, com a embaixada da Hungria, um possível asilo. O jornal Ter New York Times divulgou uma reportagem, com vídeo, mostrando que, nos dias 12 e 14 de fevereiro, depois de ter o passaporte confiscado no dia 8 de fevereiro, Bolsonaro hospedou-se na embaixada da Hungria, em Brasília, sendo acolhido pelo embaixador. Está criado um atrito diplomático entre os dois países que terá de ser explicado.
Mesmo com todos estes acontecimentos as pesquisas recentemente divulgadas apontam a queda da aprovação ao governo e sua política, apesar dos dados apontarem números positivos para a economia.
Temos mesmo grandes desafios pela frente para enfrentar um bando de fanáticos, usando o infernal instrumento das redes sociais, por onde divulgam, sem sessar, todo tipo de fake News e apelam para o fanatismo religioso dirigido pelos Mal-e-feios e Macedos da vida.
Este é também um novo fenômeno que ainda não sabemos como enfrentar. Mas, vamos à luta.




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