Nelson Rosas Ribeiro

Como destacamos em nossas últimas análises, o processo de recuperação da
economia continua em marcha. O Banco Mundial revisou de 1,3% para 1,7% sua
projeção para o crescimento do PIB no Brasil, o “mercado” e o Boletim Focus do Banco Central estimam em 1,9%, este crescimento e o Ministério da Fazenda em 2,2%. Corremos, porém, o risco de estar diante de um “voo de galinha”, e a recuperação ser abortada. O setor produtor de “meios de produção”, o setor de máquinas e equipamentos, que nas nossas estatísticas é medido pelos números da Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) tem andado muito mal. Isto é agravado pelo envelhecimento de nosso parque industrial. A idade média dos equipamentos da indústria é alta e mais de um terço está obsoleto. Ela encontra-se em torno dos 14 anos, e 38% está nos limites da idade, sinalizada como ciclo de vida ideal. Com isto a produtividade é baixa, o que compromete a competitividade. Este é um problema, que só pode ser resolvido com
uma política industrial ousada, que busque uma nova inserção no atual processo de globalização.
A situação é mais grave porque essa neoindustrialização deve ser feita em um
ambiente externo adverso e em grandes mudanças. A diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva, afirmou em um discurso no Atlantic Council, centro de estudos de temas internacionais com sede em Washington, que “a atividade global está fraca em comparação com padrões históricos e as perspectivas de crescimento têm desacelerado desde a crise financeira global.” Os banqueiros dos Bancos Centrais do mundo, reunidos no simpósio de Jakson Hole, constataram algumas dessas mudanças. A primeira delas é a permanência da inflação, que não foi controlada e que continua a exigir taxas de juros elevadas. Tanto Jerome Powell (Fed dos EUA), como Christine Lagarde (Banco Central Europeu) confirmaram que é cedo para contar vantagem no controle da inflação. Nos EUA, a inflação continua
a manter-se acima da meta, o que está obrigando o Fed a preservar os juros altos e considerar a hipótese de um aumento. Isso foi suficiente para uma subida do dólar e uma desvalorização das moedas dos emergentes, inclusive o real. Corremos o risco de importar a inflação mundial, o que poderá prejudicar a trajetória de redução da Selic e criar ainda mais problemas para os investimentos.

Outro assunto destacado foi a instabilidade nas condições de oferta, diante dos
Lockdowns, das pandemias, da ruptura das cadeias de suprimento, dos conflitos de energia etc. Falou-se ainda no aumento dos déficits fiscais, que abalam os orçamentos dos estados, e nas mudanças da importância dos diferentes países como a China e Índia, no processo de globalização. Foram destacados os conflitos que contribuem para o aumento da instabilidade mundial.
Se não fossem suficientes estas dificuldades econômicas, o desafio de
reconstrução do país é tumultuado pela ação irresponsável da horda bolsomínia instalada dentro do Congresso e, agora, estimulada pelas convocações para as manifestações de rua. Surgiu ainda mais um reforço vindo do exterior, o que demonstra que a direita tem uma articulação internacional, que decidiu apoiar a desestabilização do Brasil, respondendo ao apelo de grupos de parlamentares, que tem feito incursões no exterior, conclamando ações contra o país. A mais recente manifestação veio do bilionário Elon Musk, que ameaçou não obedecer às decisões do STF para a retirada de contas nas plataformas de sua propriedade. O STF teve de tomar sérias medidas que o fizeram desdizer o que havia dito. No entanto, suas empresas continuam tentando ações contra o judiciário e incitando seus apoiadores através das redes sociais, e de parlamentares a seu serviço. Estas articulações acendem o alerta para a continuidade da conspiração para a realização do golpe, ou seja, o bolsonarismo ainda não se deu por vencido. Toda atenção torna-se necessária para que esta nova tentativa seja abortada.
Convém lembrar os antecedentes do golpe militar de 1964. A primeira
consideração a fazer é que o golpe não foi militar, mas civil-militar. Houve uma intensa mobilização de forças sociais e da sociedade civil. Lembro das ações levadas a efeito pela “Aliança para o progresso” que distribuía dinheiro às organizações populares na cidade e no campo, dos desfiles da TFP, “Tradição, Família e Propriedade pelas ruas, da “Cruzada da Família com Deus pela Liberdade”, e do Rosário em Família, onde o “padre Peyton” mobilizava as madames, para convidar as amigas, que se reuniam nas residências, a fim de rezar o terço. Todas estas ações recebiam o apoio das entidades
empresariais, que as financiavam.
Infelizmente o anticomunismo primário mobilizou também a igreja católica e,
nos sermões nas igrejas, clamava-se contra o comunismo do governo Jango. Isto ocorria enquanto preparavam-se os quarteis para a ação militar. Faltava o pretexto, que aconteceu com a “revolta dos marinheiros e fuzileiros”, dos sargentos e as invasões de terra pelos camponeses filiados principalmente às ligas camponesas. Os discursos inflamados, de dirigentes sindicais e líderes populares como Francisco Julião, completaram o quadro. Na dúvida, navios da força naval dos EUA deslocaram-se para a costa brasileira, fornecendo uma garantia extra. O golpe estava em marcha.
Quem o deflagaria? Escolheram uma “vaca fardada”, como se autodenominava o general Mourão, que executou a “gloriosa marcha” de Minas para o Rio. Jango foge para o Rio Grande do Sul e o Congresso, desmoralizado e conivente, rapidamente declarou o cargo de presidente vago e indicou o novo presidente de acordo com a constituição. Estava tudo consumado, sem qualquer resistência minimamente significativa. Depois foram as pancadarias, os arrependimentos, choradeiras, cassações de mandatos, prisões, torturas etc.
O golpe não foi apenas militar. A sociedade civil tramou e participou ativamente e os militares ficaram com o trabalho sujo. E com isso terminaram arcando com as consequências, o que provocou a desmoralização das forças armadas por muitos anos.
Hoje as condições mudaram muito, a começar pela conjuntura internacional. O
berreiro anticomunista antiquado só convence débeis mentais, fanatizados pelas redes sociais. A igreja católica sofreu grandes modificações, tendo surgido em seu seio movimentos progressistas como a “teologia da libertação”. Lamentavelmente foi substituída por grupos pentecostais com forte inspiração nos EUA. Dentro das forças armadas, que lutam para recuperar seu prestígio, criou-se um sentimento legalista, embora ainda se mantenha um forte e primário ranço anticomunista. Mas o governo Bolsonaro deixou-os com “as barbas de molho” por terem passado o vexame de se submeterem ao comando de um reles e incompetente capitão, expulso de suas fileiras, e de comportamento tão medíocre capaz de fazer corar de vergonha o mais humilde soldado. Agora são forçados a amargar novamente o calvário de tentar recuperar o prestígio perdido.
Veremos se vão conseguir.

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