
Nem manjedoura havia naquelas brenhas ressecadas do sertão pernambucano.
Nasceu em casa de taipa, chão batido, dois cômodos.
Sem mesa, nem cadeiras, muito menos banheiro.
Banho semanal, num açude a seis quilômetros.
É o sétimo filho de Seu Aristides, que foge da seca, da miséria e da família pra fazer vida em São Paulo.
A mãe, D. Lindu, desamparada, tempos depois segue de pau-de-arara para o mesmo destino de muitos outros retirantes.
Na bagagem, os filhos que sobraram.
Aos sete anos o filho de D. Lindu montou seu próprio negócio com um irmão mais velho: vendedor de amendoim, tapioca, laranjas ( morria de vergonha de gritar “olha a laranja” ).
Aos dez, virou engraxate. Foi office boy e auxiliar de tinturaria antes de se tornar metalúrgico
E o metalúrgico desvencilhou-se de sua timidez, encarou a cara feia dos donos do capital, peitou as baionetas dos generais para se tornar o mais importante líder sindical da história do Brasil.
Durante as trevas da ditadura foi forçado a visitar as masmorras do regime.
Saiu de cabeça erguida, sempre acreditando que o “amanhã há de ser outro dia”
E no alvorecer de outro dia, tornou-se o parlamentar mais votado da história política do país.
Tão bem votado que o filho de D. Lindu, vejam vocês que audácia, ousou se candidatar a presidente da República. Perdeu uma, duas , três eleições. Não baixou a cabeça, foi em frente e juntou num mesmo pacote, carisma, sensibilidade social e muita competência pra vencer uma, duas, três, quatro eleições seguidas e o respeito de uma popularidade de 85%
Assim também já é demais!!
Onde já se viu, um ‘pé-rapado’ saído lá dos grotões nordestinos querer se tornar o rei do Brasil? Fique-se sabendo que estamos na América Latina e num país onde cinco ‘desabençoados’ por Deus botam no bolso o mesmo dinheiro que toda a metade mais pobre da população brasileira. Eles e a galera que habitam o topo da pirâmide, com as riquezas e todos os poderes nas mãos, há muito tempo deitam e rolam nesse país abandonado por Deus e bonito por natureza.
E mandam e desmandam, desde as remotas eras em que um pau-mandado do império português aportou lá pela Baía de Todos os Santos pra governar o Brasil
A perseguição começou com a derrubada da presidenta eleita pelo povo brasileiro, passando pelas entranhas fétidas de um complô midiático-judiciário, para seguir num processo implacável de destruição do ‘pé-rapado’.
As togas, feito os quepes de 64 fecharam o golpe.
Para eles, o gran finale, mas os brasileiros conscientes, sedentos de justiça, com fome de democracia
seguiram na luta, caminhando e contando os dias para sua libertação, sua redenção, sua ascensão.
Deu no que deu!!!
Sebastião Costa – médico




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