Desde o estabelecimento da Constituição de 1988, que prevê em seu artigo 196 a saúde como um direito de todos e dever do Estado, o Brasil avançou em políticas públicas na área. No entanto, ainda existe um grande desafio: a desigualdade social. Que ainda impõe barreiras significativas ao acesso equitativo a esse direito fundamental, revelando um enorme abismo entre o que está garantido na teoria e o que se realiza na prática. Assim como um organismo adoece quando suas partes não funcionam em harmonia, uma sociedade também sofre quando os direitos fundamentais não são garantidos a todos. No Brasil, a desigualdade social corrói o acesso justo à saúde, resultando em um sistema que atende melhor quem mais tem, e negligencia quem mais precisa.

Segundo relatório publicado pelo Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), Instituto Veredas e Umane, a pobreza afeta a saúde de forma tão severa quanto o tabaco, o álcool, o sedentarismo, a hipertensão, a obesidade e a diabetes. Essa comparação revela algo crucial: a pobreza não é apenas um problema social ou econômico, ela é também um determinante direto da saúde pública. Quando falamos de pobreza, estamos nos referindo a muito mais do que a ausência de renda. Trata-se da falta de acesso a alimentos saudáveis, a saneamento básico, a moradias adequadas, a educação e, claro, ao próprio sistema de saúde. Isso significa que indivíduos em situação de pobreza estão mais expostos a ambientes insalubres, têm menos acesso à prevenção, ao diagnóstico precoce e ao tratamento adequado de doenças. Uma realidade triste que deploravelmente ainda é visível na vida de milhares de brasileiros.  

Vale ressaltar que a desigualdade social no Brasil não é apenas uma ferida aberta, ela é uma estrutura que se perpetua em silêncio, impactando diretamente o acesso à saúde. Enquanto os direitos básicos deveriam ser universais, na prática, o que se observa é uma divisão preocupante: os mais ricos têm acesso rápido, amplo e qualificado aos serviços, enquanto os mais pobres enfrentam longas filas, atrasos e, muitas vezes, a negação tácita do cuidado. Essa distorção não é acidental, ela reflete uma lógica de priorização que favorece quem já possui privilégios. E enquanto o Estado, na condição de principal agente garantidor de direitos, não adotar medidas reais, concretas e corajosas para corrigir esse desequilíbrio, a tendência é clara: o número de pessoas à espera de atendimento continuará crescendo, e o Sistema Único de Saúde, já pressionado, verá aumentar a demanda daqueles que mais precisam e menos têm.

Perante ao cenário de desigualdade social e da precarização do acesso à saúde no Brasil, é crucial reconhecer que garantir o cuidado digno e acessível não é apenas uma meta idealista é um dever do Estado. Não se trata de favor, mas de direito. E esse direito precisa ser efetivado, especialmente para aqueles que historicamente têm sido colocados à margem, vivendo a espera como rotina e a urgência como silêncio. É urgente que o poder público adote políticas inclusivas, estruturadas e contínuas, que priorizem quem mais precisa: a população que convive com a escassez, com a fila que não anda, com o posto de saúde que não chama, com o exame que nunca vem. Tornar o sistema de saúde mais acessível, humano e equitativo não é apenas corrigir distorções, é reafirmar o compromisso com uma sociedade mais justa, onde o cuidado não depende da renda, mas da necessidade. Enquanto essa virada não acontece, seguimos diante de um paradoxo cruel: o direito à saúde existe, mas ainda não alcança a todos.

Deixe um comentário