Uma praça fora do lugar de sempre
O lugar das bebidas,
o lugar das conversas,
o lugar dos encontros acalorados,
o lugar vivo de memórias.

Logo morre em outras pedras.

Não sei por que ouso em voltar.
Não vejo o que quero
e nem sinto o que busco.

Enfim, mergulho nas minhas próprias angústias e frustrações.

Há, subitamente,
alguém vem ao meu encontro,
encosta ao meu lado:
cabelos cacheados,
pele chocolate
e o sorriso como as luzes dos postes.

Boa hora.
Vem e me pergunta:
— Me segue?
Eu insisto:
— Não lhe sigo. Tu me segue.

É bacana como não é difícil iniciar uma conversa contigo.
Tudo vira algo: pedra, areia ou sujeira.
Magnífico ter sua presença aqui,
logo hoje,
em que me parece ser um dia cheio de tédio e ridículo.

Costumo referir a dias que não saio do meu cubículo,
me manifesto somente com minha sombra.

Mas voltando…
Você deve adivinhar, ou tem uma bola de cristal.
Você, sem dúvida, tem um radar.
Acerta na mosca a minha solidão
e traz uma leve brisa de sossego.

Não quero ficar mal acostumado.
Ou seja,
ficar te esperando,
ficar dependente de um remédio que pode virar escasso.
E quando isso acontecer,
o que será de mim?
Morro? Sofro?
Ou aprendo a conviver com minha presença inútil?

De vez em quando, você me esquece.
Ou quase sempre.
Ou nem lembra de mim.

No meu caso, é o contrário.
De vez em quando lembro de ti.
Ou quase sempre.
Aliás, lembrar de ti é próprio do meu ser,
como o caso de respirar.

Trago essas palavras porque não sei quando vou estar conversando contigo.
Já faz dias que não te vejo.
Aliás, você não vê.

Não vou me alongar.
A praça já está lotando,
e todos vão notar
a minha capacidade de falar
com alguém
que nem sequer encostou em mim,
ou veio até mim.

~Daniel Andrade

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