
A COP30 no Brasil começou com um choque de realidades. De um lado, o presidente Lula abriu a conferência falando em “COP da Verdade”, exigindo compromisso científico e ações concretas. Do outro, os povos indígenas — historicamente silenciados — invadiram o espaço oficial para denunciar que, enquanto líderes globais discursam sobre futuro verde, o presente real da Amazônia continua sendo entregue à lógica predatória dos grandes interesses econômicos.
No discurso de abertura, Lula fez um chamado necessário: que esta COP seja o marco da transparência climática, que pare de esconder números, manipular metas e transformar compromissos ambientais em marketing geopolítico. Mas o desafio é maior: transformar verdade em política pública real, e não em pronunciamento protocolar.
Logo após o discurso, veio o anúncio do Plano de Saúde Climática de Belém, um pacote de US$ 300 milhões apoiado por 80 países para preparar sistemas de saúde diante do colapso climático. É um avanço importante. Mostra que o clima não é “tema ambiental”, mas questão de sobrevivência — hospitais lotam depois de enchentes, ondas de calor e desastres extremos.
Mas enquanto os chefes de Estado celebravam o plano, lideranças indígenas atravessaram o cerimonial e lembraram a parte que o mundo insiste em ignorar: dinheiro nenhum salva uma floresta destruída. Sem demarcação, sem proteção dos territórios tradicionais, sem barrar o capitalismo extrativista que lucra com cada hectare derrubado, não há plano de saúde que dê conta da doença ambiental que avança.
Eles denunciaram, diante das câmeras e do mundo, que a Amazônia continua sendo vendida, loteada e negociada como se fosse um grande balcão verde. E perguntaram o que poucos têm coragem de dizer: de que adianta refletor, discurso e diplomacia se o pacto real — o pacto silencioso entre governos e corporações — segue intocado?
A COP30, até agora, é o palco perfeito das contradições:
um presidente pedindo verdade; um plano milionário buscando soluções; e os povos da floresta gritando que a raiz do problema é o próprio modelo de desenvolvimento que o capitalismo global tenta pintar de verde.
Se a COP30 quer realmente entrar para a história, não será pelos discursos nem pelos números. Será pelo que ela fizer diante desse grito indígena — o único que, até agora, rompeu a bolha diplomática e disse a verdade que o mundo não quer ouvir.




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