Ele era apenas um soldado raso do exército alemão durante a Primeira Guerra Mundial (1914 a 1918), que corria nas trincheiras do campo de batalha para cumprir a simples tarefa de mensageiro. A Alemanha foi derrotada. Em 1919, ele ingressou no minúsculo Partido Alemão dos Trabalhadores, precursor do Partido Nazista, e em 1921 tornou-se seu líder. Em 1923 tentou um fracassado golpe de estado em Munique, organizado numa cervejaria, por isso conhecido como o Putsch da Cervejaria. Foi preso acusado de traição, mas começou a ganhar a atenção do povo com seu discurso nacionalista combativo. Numa Alemanha humilhada pela derrota na guerra, em crise econômica com inflação e desemprego, seu discurso agressivo de exaltação do nacionalismo e antissistema encontrou terreno fértil. Em 1933, o Partido Nazista tornou-se o maior partido do parlamento e seu líder, Adolf Hitler, inicia um governo totalitário. Ignorando as restrições impostas pela derrota na Primeira Guerra, seu governo reindustrializa e rearma a Alemanha e, com uma política externa agressiva, ao invadir a Polônia, provoca a Segunda Guerra Mundial (1939 a 1945), da qual sai derrotada depois de dominar quasetoda a Europa. Seu governo foi responsável por uma das maiores atrocidades da história da humanidade, o Holocausto, com o assassinato em massa de mais de seis milhões de judeus, um incontestável genocídio, uma das maiores vergonhas que os alemães carregam até hoje.

Em 2015, o empresário magnata e apresentador de televisão, Donald Trump,que nunca havia disputado uma eleição, anuncia sua candidatura a presidente dos Estados Unidos. Com seu slogan de campanha“Make AmericaGreatAgain” (Torne a América grande novamente), um discurso nacionalista, xenófobo e crítico a todo o sistema político, surpreende nas eleições de 2016 e é eleito presidente dos Estados Unidos. Seu mandato foi marcado por suas corriqueiras afirmações falsas, quase que diárias, e suas acusações de ser alvo de fake news da imprensa. Não conseguiu a reeleição em 2020, tentou não reconhecer o resultado das urnas, incentivou a invasão do Congresso por seus apoiadores para evitar a proclamação do resultado da eleição, responde a dezenas de processos por corrupção, fraude fiscal e já foi condenado por assédio sexual. Mesmo assim, tem grande número de apoiadores e está bem nas pesquisas para a disputa deste ano.

No Brasil, em 2018, Jair Bolsonaro, um deputado obscuro com trinta anos de mandato, membro do baixo clero (o grupo dos deputados mais irrelevantes da Câmara), é candidato a presidente por um partido nanico, sozinho, sem alianças, sem dinheiro, com menos de um minuto de propaganda eleitoral na TV, com o mesmo discurso agressivo que fez durante trinta anos e que o tornou um deputado folclórico, de forma surpreendente ganha as eleições. Seu discurso agressivo contra todo o sistema político,crítico dos direitos das minorias e das políticas sociais do Estado,uma pauta de costumes conservadora e slogans como “Deus, pátria e família”, “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” e “Meu partido é o Brasil”, soaram como música nos ouvidos da maioria do povo naquele momento de raiva da sociedade. Ex militar, seu gesto de campanha era fazer uma arma com as mãos. A maioria do povo viu nele o político contra o sistema corrupto, o diferente e o novo que iria colocar ordem no país. Fez um mandato desastroso, mas ainda assim, quase foi reeleito em 2022. Tentou articular um golpe de estado sob o pretexto de possível fraude nas urnas e parcialidade da justiça eleitoral, o qual não teve êxito porque não conseguiu o apoio da maioria dos comandantes militares. Hoje, apesar das várias acusações de corrupção e fraudes delatadas por seus próprios ex assessores, assim como a tentativa de golpe, ainda conta com o apoio fiel de considerável parcela da população que continua indo às ruas para defendê-lo.

Em 2023, numa Argentina assolada pela hiperinflação e pobreza, Javier Milei, um deputado novato na política, que criou seu próprio partido em 2021, surpreendentemente desbancou os candidatos dos grandes e tradicionais partidos argentinos e foi eleito presidente da república. Auto rotulado de anarco-capitalista, tem um discurso agressivo contra os gastos do Estado e toda a classe política, segundo ele, “inúteis e parasitas que nunca trabalharam”. Em termos de economia, é contra políticas sociais, defende o Estado mínimo e o livre mercado. Nos costumes, é ultraconservador, contra o aborto mesmo em caso de estupro, defende o armamento da populacão, nega o aquecimento global e foi cético em relação às vacinas da Covid. É alinhado a Bolsonaro e Trump na suposta “guerra ao comunismo”. Seu tom agressivo ficou evidente no seu slogan de campanha “viva lalibertad, carajo” e na moto serra que carregava em todos os seus comícios como símbolo de que faria cortes drásticos nos gastos do governo.

O que estes líderes políticos têm em comum é que todos tiveram uma ascensão meteórica ao poder em um momento de insatisfação da sociedade com o sistema político-social vigente. Foram eleitos de forma surpreendente em momentos em que predominava na sociedade um sentimento de raiva contra todos os políticos que representavam o sistema, e no qualeles foram vistos como o candidato antissistema, os únicos que poderiam mudar tudo.

A maioria dos sociólogos afirma que a sociedade não é a simples soma dos indivíduos. Que ao se reunir em sociedade, os indivíduos criam uma coisa nova, um novo organismo que tem vida própria, com mecanismos e processos de mudanças nos quais os indivíduos interferem, mas que não são os mesmos que regem as mudanças dos indivíduos. Concordo com esta afirmação. Mas quero aqui defender que os fatos políticos acima relatados evidenciam que a sociedade, em determinados momentos, age emocionalmente, de uma forma muito parecida com um indivíduo. Nos exemplos acima citados, a sociedade estava em crise existencial com o sistema, com raiva, e procurou um alívio imediato, um “salvador da pátria”, assim como faz um indivíduo quando está em crise existencial com a vida, recorrendo a um alívio imediato, mesmo que este seja ilusório. E assim como alguns indivíduos desenvolvem uma relação de dependência com objetos que proporcionam este alívio, algumas sociedades, em determinados momentos, também o fazem. Os exemplos acima são evidências disto.

Hitler representou um alívio ao mal-estar da sociedade alemã que sofria naquele momento. Seu discurso levantava a autoestima da sociedade, e com ele a sociedade desenvolveu uma relação de dependência. A sociedade alemã apoiou ou foi conivente com suas atrocidades porque não queria mais romper com aquele objeto (o líder Hitler) que tanto lhe aliviava e lhe fornecia prazer. Não importava mais o que ele fazia, as atrocidades que cometia, os prejuízos que causava,importava somente não perder aquele prazer e por isso a sociedade foi com ele até o fim, mesmo quando a guerra já estava perdida, assim como acontece com um indivíduo que se vicia em alguma coisa e, mesmo com grandes prejuízos, tem dificuldade de romper a relação com o objeto de prazer. O que no início foi apenas uma escolha política influenciada pelo componente emocional, virou uma dependência. Isto explica também porque Donald Trump, nos Estados Unidos, e Bolsonaro, no Brasil, mesmo acusados com provas de vários crimes, continuam com o apoio fiel de uma grande parcela da população. A questão não é mais política, é psicológica.

Estamos vivendo atualmente uma crise mundial da sociedade com o sistema democrático capitalista, sem um contraponto de uma alternativa anticapitalista em pauta. Um ambiente extremamente emocional da sociedade, que procura uma válvula de escape para sua insatisfação. Daí a ascensão da extrema direita em todo o mundo, poisela se apresenta como uma alternativa antissistema. Daí a opção da sociedade por extremos, de direita ou de esquerda, não alinhados ao status quo. A esquerda tradicional, diluída entre aqueles que defendem o estado democrático, tornou-se apenas uma gestora do sistema. A última eleição presidencial francesa, em 2022, retrata bem este quadro. Emmanuel Macron, candidato à reeleição, venceu no segundo turno da candidata da extrema direita, Marine Le Pen, mas o que marcou mesmo a eleição foi a grande votação, no primeiro turno, dos candidatos da extrema direita, Marine Le Pen, segunda colocada com 23%, e da extrema esquerda, Jean-Luc Mélenchon, do partido França Insubmissa, com 22%, enquanto que a candidata do grande e tradicional Partido Socialista, Anne Hidalgo, prefeita de Paris, obteve apenas 1,75% dos votos.

A minha percepção intuitiva é que a sociedade, em alguns momentos, não só age emocionalmente, como cria relações de dependência com certos líderes políticos, da mesma forma como o fazem alguns indivíduos com algum objeto. Assim como não é a droga, nem qualquer objeto extraordinário, quem cria a relação de dependência no indivíduo, mas sim o próprio indivíduo, não é o tirano extraordinário quem cria uma relação de dependência na sociedade, mas sim a própria sociedade. Ainda que o tirano, diferentemente da droga, tenha suas vontades e vida própria, quem lhe dá poder, em última instância, somos nós, a sociedade. E somente a própria sociedade, assim como o indivíduo, rompe com tal relação de dependência, quando não necessita mais dela.

Uma resposta para “Não é o tirano, somos nós”.

  1. Avatar de Watteau Ferreira Rodrigues
    Watteau Ferreira Rodrigues

    Bom texto.

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