Temos um fato novo e alvissareiro no movimento sindical bancário. Provavelmente teremos uma greve nacional dos trabalhadores do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal resultado de uma rebelião da base contra a orientação do comando nacional dos bancários. 

Os bancários tem campanha salarial nacional unificada, de dois em dois anos. Nela, negociam todos os bancos, públicos e privados, representados pela Fenaban (Federação Nacional dos Bancos) com o comando nacional dos bancários, representado pela Contraf-CUT (Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro. A campanha deste ano seguia um script bem conhecido da categoria e tinha tudo para terminar como as últimas, com um acordo de reposição da inflação mais uma merreca de aumento real. Depois de muitas rodadas de negociação, nas quais são discutidas muitas outras reivindicações de cunho não salarial, como metas abusivas, demissões e carreira, a Fenaban apresentou uma proposta de reajuste salarial de apenas 4,64% agora (3,91 da inflação pelo INPC mais 0,7% de aumento real) e de INPC mais 0,6% no ano que vem. Os bancários da Caixa e BB, em assembleias por todo o país, contrariando a orientação do comando nacional, em sua maioria rejeitaram a proposta. Os trabalhadores dos bancos privados aprovaram a orientação do comando nacional de aceitar o acordo. A consequência mais provável do resultado das assembleias é a uma greve nacional no BB e Caixa. 

Os bancos, públicos e privados, de longe são o setor mais lucrativo da economia. Isso porque os juros bancários brasileiros são dos mais altos do mundo. Isto se reflete em lucros estratosféricos, bilionários, ano após ano. Os bancários poderiam ser facilmente os trabalhadores mais bem remunerados do país, mas não são. Há anos os bancários só tem aumentos pouco acima da inflação, enquanto os lucros dos bancos galopam e as metas de produtividade são cada vez maiores. A categoria, cada vez menor com o avanço da tecnologia, adoece mentalmente com a sobrecarga de trabalho e as metas abusivas. 

A rebelião da base dos bancos públicos reflete a acomodação das direções do movimento sindical brasileiro. Os outrora aguerridos sindicalistas, principalmente da CUT, que tomaram todos os sindicatos dos pelegos nos anos 80, movimento este que produziu inclusive Lula, se acomodaram ao acordo com poucas conquistas. Assim como a esquerda em geral se acomodou em fazer apenas reformas pontuais no sistema. Qual o principal motivo desta acomodação geral da esquerda? A resposta é o medo de ousar mais e perder o pouco que conquistou. Mas os trabalhadores querem mais. É o que os funcionários dos bancos públicos disseram através das assembleias. Porque apesar das conquistas o fosso da desigualdade social ainda é enorme. A vida ainda é muito dura para os pobres e para os trabalhadores em geral. Os chamados aumentos reais de salários de 1%, 2%,3%, acima da inflação, que são apresentados pela esquerda como conquista, já não satisfazem os trabalhadores, ainda bem, porque neste ritmo a desigualdade social ainda vai durar séculos. 

Uma outra questão que acomoda o movimento sindical, afora o medo de apostar mais na luta do que no acordo, é a preocupação de não pressionar o governo Lula e dar discurso para a direita. Eles não entenderam ainda que ajudam mais o governo Lula pressionando-o com as reivindicações dos trabalhadores do que protegendo-o destas reivindicações. Lula recebe pressão todos os dias do poder econômico, da direita e da mídia para fazer uma política antissocial. Defendem as isenções fiscais e os gastos públicos com os ricos e o corte dos gastos com o povo. Se Lula sucumbir a isto ele perde seu maior patrimônio que é o apoio de parte do povo, principalmente dos mais pobres, que o elegeu. Portanto, a melhor forma de ajudá-lo é pressionando-o para atender as reivindicações dos trabalhadores. 

Os bancos públicos não podem ser iguais aos privados. Não podem visar apenas o lucro. Não pode ser um ambiente de exploração de clientes e funcionários. Senão não tem razão deles existirem. Esta greve dos bancos públicos é nossa chance de obtermos maiores conquistas, mas também é a chance de Lula dar um caráter mais social aos bancos públicos. Os pobres trabalhadores brasileiros que vão lá pegar empréstimo a juro de agiota de 6,5% ao mês agradeceriam muito. A greve dos bancários dos bancos públicos é do país. 

4 respostas para “Rebelião de base no movimento sindical bancário: mais um sintoma da acomodação da esquerda”.

  1. Falou tudo e mais um pouco. Parabéns pela matéria ! 👏🏻

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  2. excelente anáise.

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  3. Isso aew Eziel 👏👏👏 falou tudo. A desculpa nos governos temer e Bolsonaro era de que não poderíamos avançar. E qual foi a desculpa agora?

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  4. Sem luta , daqui há dois anos sofreremos pressão do sindicato para votar novamente no Lula para combater o fascismo. Não aguento mais essa conversa!!!

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